PSD: Rio vai inaugurar discurso do “politicamente incorreto”

1 – A eleição de Rui Rio para a liderança do PSD foi uma pedrada no charco na política portuguesa, na justa medida em que a sua vitória fica marcada pelo triunfo do discurso “politicamente incorreto”, desde sempre abominado pela esmagadora maioria da classe política nacional.

Rio ganhou folgadamente a liderança dos social democratas contra a opinião dominante dos media; contra as forças ocultas dos corredores do poder; contra a corte política dos interesses instalados na capital; e contra uma grande parte do chamado aparelho do partido.

Durante 100 dias de pré-campanha e campanha os portugueses em geral, e os militantes do PSD em especial foram bombardeados com toda a espécie de vaticínios e exercícios de adivinhação sobre os resultados desta refrega interna do partido. E só no final, muito a custo alguns iluminados e detentores da verdade opinativa publicada começaram a admitir que, afinal, os dois candidatos estariam em empate técnico. Todavia, os resultados deram a Rui Rio uma vitória de quase dez pontos percentuais sobre o seu adversário…

2 – Rui Rio é um político anormalmente previsível. Ao longo da sua carreira política, enquanto líder da JSD, deputado, secretário-geral do partido, ou presidente da Câmara do Porto, sempre demonstrou um estilo de atuação fora do comum, quando comparado com as práticas seguidas pela maioria dos nossos políticos. Rio não se comove com as críticas dos media, a opinião dos colunistas dos jornais, ou as análises dos comentadores das rádios e televisões. No seu habitual bom humor, Rio até se diverte em privado com o que dele é proclamado aos quatro ventos.

É por tudo isto que o novo líder do PSD não se coibiu de, em plena campanha eleitoral interna, dizer que caso o PSD não ganhe as eleições do próximo ano, nem por isso deve excluir a hipótese de viabilizar um governo minoritário do PS no parlamento, mediante a negociação de um pacote alargado de reformas estruturais. O importante, defende Rui Rio, é servir o país, e não deixar os socialistas reféns da atual frente de esquerda. Ou seja, no caso de ficar à frente do PSD, Costa terá de assumir se prefere o apoio das esquerdas, ou se está disponível para negociar a modernização do país mediante um plano de reformas estruturais com o apoio parlamentar do PSD.

 3 – Ora, esta postura é completamente anormal para as práticas comuns da nossa classe política. E por isso não espanta que haja por aí um clamor enorme nos media, e um discreto nervosismo dentro do próprio PSD. Porque esta linguagem e postura é “politicamente incorreta” para os guiões da hipocrisia política da maioria dos dirigentes partidários. O normal seria que Rui Rio dissesse algo como isto: “Nós não equacionamos qualquer outro cenário que não seja uma vitória expressiva do PSD nas próximas legislativas!”

Desiludam-se os que pensam que Rio algum dia se vergará ao discurso do politicamente correto. Será igual a si próprio, e dirá sempre e só que o que vai na sua cabeça. Nele não há precipitações no discurso, nas decisões, ou na ação. Há apenas convicções, independentemente das consequências. E quem antes de todos os outros terá de se habituar a este estilo será o próprio partido. Mas não só: também os jornalistas, comentadores e analistas, os demais dirigentes políticos, e até os próprios líderes dos órgãos de soberania vão ter de conviver com esta nova forma de fazer política ao mais alto nível. Os resultados? Ver-se-ão mais tarde…    

Nota: O aqui autor foi chefe de gabinete de Rui Rio durante uma década.

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