Quando a Troika sair para que serve um programa cautelar?

1 – A discussão política dominante do momento é saber como ficará Portugal quando, em maio próximo, a Troika deixar o país. Isto porque, prestes a chegar ao fim deste programa de assistência, é da maior importância saber se o país tem capacidade para ficar sozinho, entregue aos mercados de financiamento internacional, ou se deve negociar previamente um programa cautelar, para não correr o risco de não conseguir financiamentos, ou então ter de pagar de novo juros proibitivos. Claro está que nem sequer estamos a admitir a hipótese de necessitarmos de um novo resgate financeiro. A questão de termos ou não um programa cautelar negociado antes da saída da Troika não é uma matéria irrelevante. Pela simples razão de que o facto de termos apertado o cinto até ao limite do estrangulamento de quase todos nós, nem por isso estamos numa situação folgada, para pensarmos que os mercados financeiros internacionais já confiam de tal modo na nossa economia que nos emprestarão o que precisarmos a um juro aceitável. Os mercados são cegos e insensíveis às nossas dificuldades. Para eles o que conta é a perceção se temos ou não condições para lhes pagar, no futuro, aquilo que eles nos emprestam.

2 – Ora, é aqui que começam todas as dúvidas. Apesar do Governo andar por aí a embandeirar em arco sobre a melhoria dos nossos indicadores macroeconómicos, a verdade é que as agências de “rating” continuam a classificar a dívida pública portuguesa como “lixo financeiro”. Isto é, o que estas agências dizem ao mercado é que há razões para pensar que Portugal continua a não ter uma economia que assegure capacidade para cumprir os pagamentos do dinheiro que devemos aos nossos credores internacionais. E se isto é assim sobre o que devemos, claro que quem nos empresta pensa duas vezes se o deve ou não fazer, e a que juros. Perante estas dúvidas, o melhor seria que antes da Troika sair, Portugal cuidasse de negociar o tal programa cautelar, que é como quem diz, ter um seguro negociado com os nossos parceiros da União Europeia. Caso os mercados venham a exigir juros excessivos sobre futuros empréstimos ao nosso país, então poderíamos utilizar a tal linha de crédito previamente negociada, com juros garantidos a valores aceitáveis. Só que para negociar este programa cautelar é necessário aceitar as condições que a União Europeia entenda exigíveis. E essas condições certamente passam por continuar com o cinto totalmente estrangulado…

3 – Foi por causa destas exigências que a Irlanda recusou negociar um programa semelhante, e optou por deixar ir a Troika embora sem qualquer acordo prévio para futuros financiamentos. Só que a economia irlandesa é muito mais poderosa do que a portuguesa. E portanto, o exemplo irlandês não é aplicável ao nosso país. O mais certo é que se Portugal optar pela chamada “saída limpa”, à irlandesa, ou seja, sem qualquer programa cautelar, os mercados vão tratar-nos sem dó nem piedade. Ou seja, vão exigir-nos juros altíssimos para nos emprestarem mais dinheiro. A verdade é que esta opção é sobretudo de natureza política. Isto é, para o Governo a tentação de recusar novas exigências da União Europeia, a troco de um programa cautelar, é muito grande, porque politicamente é difícil convencer os portugueses de que é melhor continuar a apertar o cinto. Qualquer Governo gosta de fazer flores, e dar uma ideia de que, com a saída da Troika, a crise caminha para o fim, e que estaremos livres de novas exigências. Se assim for, e optarmos por esse caminho, viveremos mais uma ilusão, de saber muito amargo. O nosso povo diz que mais vale prevenir que remediar. E portanto, o ideal é não entrar em aventuras. Mal por mal, venha um programa cautelar…

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