Quem vai pagar a fatura dos desvarios dos bancos?

1 – O repentino desmoronamento do Grupo BES colheu praticamente toda a gente de surpresa. Mesmo os cidadãos, empresários e instituições mais bem informadas estavam longe de imaginar que as desavenças internas na família Espírito Santo pudessem precipitar uma crise de tão monstruosas dimensões. E compreende-se que no complexo mundo financeiro que caracteriza o nosso tempo seja praticamente impossível alguém prever o futuro com rigor.
O que não se compreende é que, depois de tantas inspeções, testes de stress, análises da troika, fiscalizações de toda a ordem, nenhuma das instituições que têm por missão, direta e indiretamente, vigiar as práticas ocultas dos grandes estrategos do mundo financeiro em geral, e da banca em especial, tenha visto e travado as tropelias que ao longo dos anos foram feitas na banca portuguesa. Mais uma vez todos falharam, e agora todos procuram lavar as mãos…

2 – É por isso que o caso BES é de todos o mais escandaloso. Quando o Banco Privado Português entrou em colapso, há mais de seis anos, todo a gente se espantou. Mas estávamos ainda no princípio da crise. Quando o Banco Português de Negócios implodiu, foi um escândalo nacional, e o Governo atabalhoadamente nacionalizou, num domingo à tarde, os prejuízos, e deixou a salvo, para os donos, a carne que ainda existia no universo do grupo.
Mais tarde, quando se começou a falar do previsível colapso do BANIF, o Governo injetou-lhe mais de mil milhões para o salvar. E quando o Millenium-BCP começou a ameaçar converter-se num terramoto nacional, mais uma vez foi o dinheiro da troika que o salvou da falência, com um empréstimo, garantido pelo Estado, de três mil milhões de euros. O que aconteceu aos culpados de todas estas tropelias? Praticamente nada. Umas coimas, umas inibições de gestão, e pouco mais…

3 – Agora que a procissão do BES ainda vai no adro, ninguém sabe o que virá por aí. Sabe-se, isso sim, que há muitos ajustes de contas pessoais e políticas para saldar, e que, no fim do dia, se não for de outra maneira, será sempre o Estado a dar as necessárias garantias sobre a recapitalização do banco. Que é como quem diz, uma vez mais vamos assistir ao aumento da dívida pública, ainda que confiantes que neste caso o empréstimo tenha retorno com juros lucrativos. Mas se tudo falhar serão os cidadãos a suportar, com os seus impostos, os efeitos de toda esta tragédia.
Paralelamente, no rescaldo da tempestade, haverá mais umas centenas de empresas que, direta e indiretamente, serão arrastadas na enxurrada, lançando no desemprego mais uns largos milhares de trabalhadores indefesos e inocentes. Tudo isto porquê? Porque quem deve vigiar os gananciosos não vigia; quem deve proteger os cidadãos não protege; quem deve castigar os prevaricadores não castiga; e quem deve pagar os desvarios… não paga. Quem paga sempre, de uma maneira ou de outra, são os que nada têm a ver com estes mundos. Ou seja, os cidadãos anónimos.

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