“Quo Vadis” União Europeia na tempestade das divisões?

1 – A União Europeia está cada vez mais enredada no meio da tempestade das suas próprias divisões e contradições. As eleições para o Parlamento Europeu do início do verão não consagraram nem uma rutura com o seu figurino anterior, nem tão pouco reforçaram a linha de rumo que vinha sendo seguido nos últimos anos. O PE ficou mais dividido, mais fragmentado, e tornou-se mais difícil conseguir acordos alargados, verdadeiramente mobilizadores.
A pulverização de votos pela enorme diversidade de partidos políticos que hoje têm lugar no Parlamento de Estrasburgo veio acentuar ainda mais as divisões e as fraquezas que, nos últimos anos, se têm vindo a tornar cada vez mais preocupantes. É certo que a direita e o centro- direita, em torno do Partido Popular Europeu, mantiveram a sua hegemonia naquele areópago. Mas perderam força, sem que a esquerda e o centro-esquerda tivessem conseguido afirmar-se como alternativa.

2 – Por seu turno, a formação da nova Comissão Europeia (o verdadeiro Governo da União), liderado pelo luxemburguês Jean-Claude Juncker, tem-se mostrado um parto difícil, com vários candidatos a comissários a esbarrarem na prova de fogo a que foram submetidos no Parlamento Europeu. Estamos, por isso, longe de podermos dizer que a União Europeia tem criadas as condições para um novo rumo, a curto prazo.
E como se ainda não bastassem estas divisões internas, assistimos na prática a uma espécie de “desobediência civil” de vários países membros da união, que têm vindo a desafiar Bruxelas e a afirmar que não aceitam a “ditadura” dos défices, e que não respeitarão o tratado orçamental. A França foi o primeiro país, verdadeiramente poderoso, a fazer a sua declaração de guerra. Outros lhe seguiram os passos, de forma mais ou menos tímida ou afirmativa.

3 – Ora, é neste cenário que Portugal caminha para o último ano da presente legislatura, com o atual líder do Governo – até aqui sempre obediente a Bruxelas – a dar um pequeno sinal de rebeldia, ao deixar que na proposta de orçamento para o próximo ano, o défice resvale para os 2,7 por cento, em vez dos 2,5 a que Portugal se havia comprometido. Ao mesmo tempo foi o próprio Passos Coelho que veio apregoar pela primeira vez que não podemos deixar-nos sufocar pelo “fanatismo” do défice orçamental… Um espanto para a ortodoxia reinante!
Sabe-se, por outro lado, que o novo líder do Partido Socialista, António Costa, é um discípulo da teoria sampaísta, segundo a qual “há mais vida para além do défice”. Ou seja, por este andar, quando no próximo ano, como tudo indica, António Costa chegar ao poder, Portugal pode engrossar o rol de países para quem o défice não é mais do que uma simples referência das políticas públicas. Então, a velha pergunta de sempre troará, cada vez com mais força: Mas, quem é que vai pagar a gigantesca dívida pública portuguesa?

 

 

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