Resultados das Presidenciais em cinco reflexões

1 – A Esquerda sai derrotada destas eleições. A Direita, na imagem de Marcelo Rebelo de Sousa, vence à primeira volta com cerca de 52% do total dos votos. A criação da figura de Marcelo, durante uma década, em horário nobre, como senador da política portuguesa e a sua campanha com um discurso do senso comum, onde a proposta política foi praticamente inexistente, dão uma vantagem clara ao único candidato da Direita, que triunfou com um dos seus slogans: «sou a esquerda da direita», pescando assim o resto dos votos que lhe faltavam para a maioria no centro.

2 – As candidaturas «em cima do muro» não surtiram efeito. Maria de Belém, a mais apostada num discurso centrista, que se descolou inclusive do atual Governo do seu partido (PS) levou-a a uma derrota eleitoral. O episódio das subvenções foi o acidente num percurso já despistado.

3 – Sampaio da Nóvoa teve a capacidade de juntar um eleitorado jovem, também. O apoio de ex-Presidentes da República deram uma importância simbólica à sua campanha, no entanto o resultado fica aquém do esperado. Nem sempre o seu discurso foi claro: o apoio crescente de personalidades do PS faz com que Sampaio da Nóvoa centre o seu discurso – ficará por conhecer alguns dos posicionamentos do candidato, que penso ficarem indiretamente tímidos com a natureza dos seus apoios.

4 – Edgar Silva faz a campanha mais fraca alguma vez preparada pelo PCP. O seu início de campanha é marcado com as declarações à direita do PCP no que toca ao retificativo do BANIF, e o discurso foi esvaziando à medida que outras campanhas colocaram a Constituição como central do debate na campanha. O eleitorado em Portugal nunca esteve tão instável como agora e uma das elações que devemos tirar daqui é que a mobilização orgânica não significa diretamente um apoio eleitoral direto. A capacidade de chegar a outros setores da sociedade foi uma inexistência na campanha de Edgar Silva, fazendo com que parte do eleitorado tradicional do PCP escolhesse também outras alternativas.

5 – Marisa Matias. Ao contrário do esperado, alcança um resultado histórico. Em primeiro lugar, e ao contrário do que se diz, nem sempre são as candidaturas «independentes» com mais capacidade de aglutinação. Marisa Matias foi a candidata apoiada exclusivamente pelo Bloco de Esquerda e consegue agregar apoios de várias áreas políticas e da sociedade, isto sem deixar de ter o discurso mais à esquerda de todas as candidaturas: clara no que toca ao Orçamento Retificativo do BANIF, com uma posição anti-guerra e anti-NATO, plena na defesa da Constituição versus Tratado Orçamental, firme na ideia de uma desobediência ao diretório europeu por uma política anti-austeridade.

Entre a esperança trazida pelas novas soluções políticas e as dúvidas adjacentes a essa mesma solução, os resultados das Presidenciais são a certeza de que a geometria na relação de forças está a alterar e o resultado de Marisa Matias é a imagem de uma nova esquerda sem papas na língua.

, ,