“Salvação nacional”, ou salvação da direita?

O mês de julho em Portugal fica marcado pela inexistência de Governo. No dia 1 Vítor Gaspar demitiu-se, afirmando o falhanço do seu programa político e económico. No dia 2 Paulo Portas demitiu-se, afirmando a falta de confiança no primeiro-ministro. Depois seguiram-se uma série de episódios degradantes. Passos Coelho tornou Portas refém, recusando aceitar a sua demissão. Paulo Portas afirmou que “irrevogável” queria dizer, afinal, revogável e que vive bem com a dissimulação. Os dois criaram então uma remodelação à medida das birras de cada um. Cavaco Silva ouviu e não gostou. Decidiu tornar PSD e CDS reféns e juntar-lhes o PS. Chamou-lhe negociação para a “salvação nacional”. Durante uma semana sucederam-se reuniões. Depois o PS decidiu finalmente bater com a porta. E no dia 21, Cavaco Silva falou ao país e disse que a salvação nacional não existe. E que fica tudo como estava antes, mas mais degradado. Um governo morto-vivo.
No meio da confusão dos dias, e do sai e entra, é importante não esquecer o central da crise: as cartas de Vítor Gaspar e de Paulo Portas. Vítor Gaspar demitiu-se afirmando três derrotas: a do programa de ajustamento, da credibilidade e da coligação. O programa de ajustamento provocou um desemprego avassalador e não cumpriu nenhuma das metas a que se propunha. Nem o défice nem a dívida foram controlados; ficaram sempre muito acima das previsões. Face ao falhanço, o governo perdeu credibilidade interna e externa. Um governo sem programa e sem credibilidade desfaz-se, incapaz de lançar uma nova estratégia para o país.
Paulo Portas, que ficou de apresentar em abril o programa de cortes no Estado Social, demite-se logo a seguir a Gaspar. Não há saída para o Governo nem confiança na coligação. Paulo Portas, com a sua carta, a 2 de Julho, defendia eleições antecipadas. Face ao falhanço assumido do programa da direita e à degradação da coligação, Cavaco Silva torna-se o homem da troika em Portugal. Independente do resultado, não se aceitam desvios à rota traçada. Nem as eleições podem mudar isto, anunciou, o plano é continuar a sangria do país em nome da finança.
Cavaco Silva faz a democracia refém, substitui-se ao governo e anuncia ele próprio uma moção de confiança. Abandona a Presidência da República e assume o cargo de primeiro-ministro. No fim de tudo isto fica uma certeza: a salvação do país é a última coisa que interessa a Cavaco Silva. O seu registo é outro. A salvação da direita. Nem que seja à custa da destruição do país.

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