Se a economia está a recuperar… Porque não acaba a austeridade?

1 – Nas últimas semanas os portugueses têm vindo a ser bombardeados com sucessivas notícias com um denominador comum: os indicadores macroeconómicos apontam para uma inversão de tendência, ou seja, apontam para uma recuperação da nossa economia. Estas notícias vão aparecendo a ritmo cadenciado, como convém para terem efeito de acumulação no imaginário do cidadão comum. Ou seja, hoje sai um indicador de melhoria do índice de desemprego, amanhã um indicador do défice, no dia seguinte um número mais simpático na evolução das exportações, depois um outro dado mais positivo sobre o consumo interno, etc, etc.
À medida que estes dados vão sendo divulgados, soam as trombetas dos propagandistas de serviço, e desfilam pela televisão comentadores atrás de comentadores exaltando o ritmo da alegada recuperação da nossa economia. É certo que paralelamente as oposições esfalfam-se para encontrar justificações que sirvam para desvalorizar os ditos indicadores, que nos apresentam uma espécie de milagre a surgir no horizonte. E o pobre cidadão, que não tem formação nem paciência para digerir o que dizem tantos “sábios” ao mesmo tempo, fica confundido, sem saber quem tem razão, e quem é mais hábil a manobrar o discurso…

2 – À falta de melhor defesa, os portugueses cingem-se a analisar as suas próprias vidas, e o que sentem no seu dia-a-dia sobre o efeito da austeridade e da crise. Por isso, de pouco ou nada vale ao anónimo cidadão ouvir dizer que isto está a melhorar, se na sua vida nada se sente nesse sentido. Não vale a pena dizer-lhe que o desemprego está a baixar, quando ninguém conhece um vizinho ou um familiar que tenha conseguido um novo emprego, depois de ter sido despedido. O que as pessoas conhecem e sabem é que há muitos seus amigos, familiares e outros conhecidos que ou já saíram para o estrangeiro, em busca de trabalho, ou andam à procurar de uma oportunidade, onde quer que seja.
De pouco ou nada vale dizer às pessoas que o produto interno bruto cresceu mais do que o previsto se essas mesmas pessoas não sentem nas suas vidas qualquer efeito relacionado com esses indicadores. De pouco ou nada vale apregoar que as exportações cresceram, e a balança comercial está mais equilibrada ou com saldo positivo (diferença entre o que exportamos e o que importamos) se as pessoas não sentem nenhuma mudança nos seus rendimentos, nem nas perspectivas de melhoria das suas condições de vida. O que as pessoas sentem é que cada vez recebem menos e pagam mais impostos…

3 – Mas o que verdadeiramente deixa o cidadão anónimo baralhado é quando ouve dizer – como tem acontecido nos últimos dias – que, afinal, vamos viver em austeridade permanente no mínimo durante os próximos 25 ou 30 anos. E que os salários dos trabalhadores no ativo, ou as pensões e reformas dos pensionistas e reformados, nunca mais voltarão aos níveis que tinham antes da crise. E que os impostos que subiram de forma escandalosa só poderão baixar daqui a muitos anos. E que não vamos conseguir pagar a dívida pública se não houver uma renegociação que nos permita que a maior parte dela venha a ser paga durante uns setenta anos, em vez de uma década, etc, etc.
É por causa destes discursos cheios de contradições que os cidadãos há muito deixaram de acreditar nos políticos. É por causa destes discursos que cada vez mais se ouve, por todo o lado, este desabafo: os políticos são todos iguais. É por causa destes discursos que tanta gente diz que nem sequer irá votar nas eleições para o Parlamento Europeu, já no próximo mês de Maio. É por causa destes discursos que tanta gente diz que é indiferente sermos governados por estes ou por quem está na oposição. É por causa destes discursos que os governantes são assobiados, onde quer que vão, e já nem o Presidente da República se livra dos protestos públicos. Simplesmente porque a palavra da actual classe política chegou ao grau zero da credibilidade.

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