Sem compromisso, Portugal Continua

O Presidente da República tentou nas últimas semanas ser charneira dum processo de compromisso entre os partidos do arco da governabilidade. A intenção era garantir alguma estabilidade política a médio prazo para o cumprimento do programa de financiamento. Seria sempre um acordo de valor, apenas, político, mas provavelmente seria um acordo que aumentaria a força negocial de Portugal no estrangeiro. Foi um acordo gorado.
Não saberemos, naturalmente, o que aconteceria se tivesse havido acordo. Na verdade, já houve uma espécie de acordo político desta natureza quando, nas últimas eleições, os três partidos acordaram seguir o programa de entendimento. O PS, culpando os ajustes dos exames regulares, retirou-se desse acordo e começou a atirar para cima da maioria o ónus das medidas impopulares. Note-se que o valor de 4,7 mil milhões de euros que o PS reclama como excessivo nos cortes a fazer na despesa do estado, não compara mal com os cortes a que o PEC IV obrigaria – este, claro, sem financiamento garantido.
O que sabemos é que não houve acordo. O Presidente, ao pedi-lo, deve ter considerado que havia possibilidade de o encontrar. Olhando para os documentos que os partidos divulgaram, percebe-se de onde viria essa impressão: os partidos da maioria estavam dispostos a ceder nalguns pontos ao Partido Socialista e levantou-se mesmo a possibilidade do PS negociar diretamente com a troika. O PS entendeu que não poderia acompanhar as cedências da maioria e insistiu num documento que havia publicado no ano passado, chamado “Documento de Coimbra”, do qual pouco se desviou – seguindo a indicação de Mário Soares, Manuel Alegre ou José Sócrates.
No fim de contas, o Presidente da República tomou o único caminho possível: deixou o governo em funções, apoiado que está por uma maioria parlamentar que ultrapassou as divergências abertas no início do mês. Esta maioria tem a obrigação de seguir o programa até tirar Portugal da situação atual. O PS está fora desse caminho e os portugueses saberão julgar.

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