Ser político

Ser político é cada vez mais uma dura condição daqueles que dispostos a ativamente pensarem e fazerem o país, cumprem tal vocação imbuídos da salvaguarda dos princípios e desapossados de qualquer intuito de promoção e/ou enriquecimento pessoal.
Com efeito, parece singrar na política portuguesa um pernicioso lastro de interesses onde as opções manifestadas se determinam não pelo generoso efeito que podem causar na sociedade em geral e na vida das pessoas em particular, mas porque o partido sai reenquadrado, ou os oligarcas defendidos ou mesmo, os interesses de quem as tomou, protegidos. E tanto assim é nas maiorias conjunturais como nas oposições do momento em que, para mais rapidamente acederem ao poder, se não inibem em se “encostar” a estratégias dúbias, poeirentas e populistas, defraudando sistematicamente todas as expectativas do incauto povo que avido de justiça, se deixa influenciar e determinar por suas parangonas de felicidade prometida.
É lastimoso que a experiência nos mostre tanta dicotomia falsa entre governo e oposição, com esta a tirar meças de veemência na crítica, como se tivesse todas as soluções guardadas e garantidas. O governo trata a oposição como se fossem falsários, a oposição vê no governo um conjunto de mentecaptos. Com a alternância nos períodos eleitorais invertem-se as posições e, tudo continua na mesma. É extenuante a ausência de consensos duradouros em áreas onde todos sabemos que estamos de acordo. Depois, ficamos como estamos hoje.
No meio deste imbróglio em que a política portuguesa se transformou, vai contudo proliferando muita gente boa. Gente preparada, gente capaz, gente séria, mas que é dramaticamente cilindrada pelo establishment partidário, por estes “senhores” que viram na política e nos partidos um “poço sem fundo” de mordomias e prerrogativas pessoais, e que vêm aqueles como indesejados obstáculos na “autoestrada” dos interesses onde se movem. Destes “senhores”, quantos não mudam a toda a hora e em função das circunstâncias, como se a ideologia fosse um descartável berloque.
Urge portanto realçar aqueles honrosos resistentes, tantas vezes maltratados na enxurrada da crítica fácil à classe política, como se todos fossem iguais. Tantas vezes, dentro e fora dos partidos, vilipendiados na sua intrínseca boa-fé. Porque a política não é nem poderá jamais ser entendida, como o prado dos mentirosos, dos polutos ou dos ardilosos. A política tem sempre campo para o genuíno, o solidário, para a verdade. E estes, os políticos sérios, com a persistência da sua convicção, são a garantia de que Portugal tem futuro e de que a política é um digno espaço onde a sociedade se pode rever.

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