Taticismo político dos partidos pode pôr em causa saída da crise

1 – Nunca como nas últimas semanas se falou tanto na necessidade de um acordo alargado entre os partidos do arco do poder (PSD, PS e CDS), como forma de assegurar uma saída sustentada da crise económica em que o país se encontra mergulhado. À medida que nos aproximamos do fim do programa cautelar negociado com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional, coloca-se a questão nuclear de saber se os mercados financeiros estarão abertos ao financiamento do Estado português, e a que taxas de juro. Daí se discutir tão insistentemente a necessidade de um programa cautelar a partir da saída da troika, em junho próximo. Os mais pessimistas admitem mesmo que não será suficiente sequer assegurar o dito “programa cautelar”, pois corremos mesmo o risco de precisar de um segundo resgate internacional, ou seja, um novo pacote de financiamento tutelado pelos nossos financiadores. Neste caso, estaríamos a falar de mais medidas de austeridade, e do prolongamento da penúria económica e social em que nos encontramos desde a assinatura do memorando de entendimento, e que tem assegurado o financiamento do Estado desde 2011. Se uma tal calamidade nos cair em cima da cabeça, então teremos de nos preparar para mais uma década de sacrifícios e austeridade…

2 – Ora, é justamente por causa desta incerteza que os partidos da maioria, o Governo, o Presidente da República e um elevadíssimo número de instituições e personalidades têm insistido na necessidade de um acordo alargado, pois há a firme convicção de que sem envolver os três partidos do poder (PSD, PS e CDS) num projeto estratégico de médio prazo, Portugal não conseguirá financiamento externo nem nos mercados, nem mesmo no âmbito da União Europeia. Porém, aos sucessivos convites e desafios, o Partido Socialista tem respondido com um inequívoco “NÃO”, exigindo no mínimo, como contrapartida para uma tal hipótese, que o Presidente da República convoque eleições antecipadas. E é neste jogo de palavras e táticas políticas – tão óbvio quanto subtil – que reside a chave do problema. Pelo simples facto de tanto Pedro Passos Coelho como António José Seguro saberem que nenhum deles poderá governar no futuro sem a existência de um largo acordo que envolva pelo menos os dois maiores partidos. E se o líder socialista está firmemente convencido que em caso de eleições o seu partido sairá vencedor, o líder social-democrata não ignora que sem envolver os socialistas os nossos parceiros europeus não voltarão a abrir os cordões à bolsa, nem no âmbito de um “programa cautelar” pós-troika, e muito menos num novo resgate de largo alcance financeiro.

3 – Esta equação política surge assim com meridiana simplicidade: quem pode liderar o próximo governo? Ou o PSD cede na realização de eleições antecipadas, e poderá assegurar o tal compromisso com os socialistas; ou insiste em culpar o PS pela falta de um amplo acordo político, e corre o risco de não conseguir financiamento externo a partir do próximo verão. Claro está que, perante uma tal ameaça, será o próprio Presidente da República que acabará por tomar a decisão de antecipar as eleições. Ainda aí resta saber se o PSD insistirá em disputá-las com Passos Coelho, ou se uma qualquer rebelião interna no PSD levará à escolha de um novo líder para a refrega eleitoral.Seja como for, é dramático os portugueses mais esclarecidos constatarem que os taticismos políticos de uns e outros podem empurrar o país para um prolongamento da austeridade por tempo indeterminado. Porque, em última instância, a única dúvida que parece restar consiste em saber quem será o Primeiro-Ministro que irá governar Portugal no novo período de austeridade, que todos os dias se adivinha mais dramático e prolongado. E tudo isto, apenas e só porque a ambição do poder continua a cegar de forma tão intensa quer quem nos governa hoje, quer quem assume a ambição de nos governar amanhã. Caso para dizer: os portugueses merecem melhor sorte…

, ,