Tem o Estado condições para vigiar o submundo do futebol?

1– As raízes do futebol perdem-se na memória dos séculos. Mas o futebol como hoje o conhecemos, nas suas principais regras, tem 170 anos, pese embora, ao longo deste período, registar centenas de alterações, sempre com o objetivo de tornar o jogo mais civilizado. É certo que nas suas origens remotas o futebol não traduzia em si uma disputa desportiva civilizada nem humanizada. Bem pelo contrário, no século XVI um escritor inglês descrevia-o como “um jogo bárbaro, que só estimula a cólera, a inimizade, o ódio e a malícia.” Porém, a partir de 1848 foram introduzidas as principais regras que ainda hoje vigoram, com o objetivo de tornar o futebol num desporto dinâmico, mas cavalheiresco.

E a verdade é que durante mais de um século e meio o futebol foi evoluindo cada vez para um patamar superior, tornando-se no desporto rei, sobretudo na Europa e América Latina. Mas com o andar dos tempos, e de uma forma vertiginosa já neste século, o futebol tornou-se num poderoso negócio à escala planetária. E a partir do momento em que as disputas no relvado passaram a ser a fonte de poderosos interesses financeiros, o futebol de alta competição começou a perder a sua nobreza. Só as equipas amadoras continuaram a alimentar o jogo pelo jogo, enquanto a profissionalização e a internacionalização dos atletas mais dotados abriu caminho a todo um submundo de contornos indefinidos.

2– Portugal não escapou ao fenómeno, até porque se tornou num país de referência no mundo do futebol. A partir daqui, para o bem e para o mal, passamos a conviver com dois mundos antagónicos: o daqueles que olham para o futebol como uma arte  onde se conjugam o talento, a inteligência, o trabalho, a disciplina, a amizade, o cavalheirismo, o respeito e a solidariedade entre as pessoas e os povo; e aqueloutro mundo, desconhecido da maioria, onde se jogam os interesses pessoais e de grupo, as conveniências políticas, a mentira, a ganância, a corrupção, o tráfego de influências, o branqueamento de capitais, enfim, todo um submundo de ilegalidades e crimes mais ou menos identificáveis.

Na verdade, nos últimos anos os portugueses têm assistido às mais horrorosas estórias no submundo do futebol nacional. É certo que não estamos sós, nestes percursos de malfeitorias. Em maior ou menor escala assistimos a fenómenos destes um pouco por todos os quadrantes do mundo. Mas isso não nos pode consular nem desculpar. E o pior é que este descontrolado submundo invadiu as mais respeitáveis instituições das sociedades modernas. Desde as instituições políticas às culturais, desde o mundo da alta finança aos corredores dos negócios, da vida empresarial e a importantíssimos setores de decisão governamental…

3– Chegamos tão longe que urge perguntar: Tem hoje o Estado condições para controlar e vigiar o que se passa no submundo do futebol? A resposta não é fácil, porque talvez se tenha ido longe demais. O futebol invadiu os negócios, o setor financeiro, mas, sobretudo, invadiu importantes centros de decisão política. Por ingenuidade ou imprudência, por interesses ou por oportunismo eleitoral, muitos políticos portugueses deixaram-se arrastar ou foram seduzidos para os mais escuros corredores do submundo do futebol. Alguns talvez nem se tenham apercebido do risco que correm. Mas estão lá dentro, e convivem, ingenuamente ou por interesses, com atores altamente duvidosos, tornando-se reféns sobretudo dos mais mafiosos.

Todos proclamam que é necessário repor as coisas no seu devido lugar. Todos estão de acordo que é preciso ter a coragem política para enfrentar os desvios, doa a quem doer, custe o que custar. E na verdade há boas razões para dizer que no meio destes labirintos há muita gente séria, certamente a maioria, que nunca fez nem quis fazer nada que não fosse em prol das boas práticas, e das mais salutares atitudes desportistas. Mas é bom que se reconheça que quando a classe política aceita alinhar lado a lado com gente mais que duvidosa, corre sérios riscos de perder a autoridade no momento em que ela faria mais falta. Como diz a sabedoria popular: “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.” Mas o pior é que alguns nem sabem mesmo com quem andam!

, ,