Tempos espantosos!

Os ingleses, para fazer notar o seu espanto com as realidades que o mundo nos impõe exclamam por vezes “What A Time To Be Alive!” – qualquer coisa “que tempo este, para estar vivo!”. Politicamente, vivemos dias que parecem merecer esse epíteto. Mas se calhar poderíamos passar com só um bocadinho menos de emoção – é do país que falamos.

Recapitulemos: as eleições do dia 4 deram a vitória à coligação Portugal à Frente quando o Partido Socialista, nas palavras do seu Secretário-Geral, prometia “a maior derrota de sempre da direita”. A direita perdeu, isso é certo, a maioria absoluta mas recebeu um inequívoco mandato para governar. O PS não só não obteve maioria – muito menos absoluta – como acabou com menos deputados que os do PSD não cumprindo nenhum dos seus objectivos eleitorais. E se não posso recomendar a António Costa que se demita – na vida dos outros partidos não me meto – o mínimo que se esperaria era alguma humildade depois do PS ter tido uma derrota tão profunda quando tantos viam a vitória como garantida.

O que aconteceu foi vermo-nos arrastados para uma telenovela de gosto duvidoso em que PS anuncia que se calhar consegue à sua esquerda uma maioria para pelo menos tolerar um governo liderado pelo derrotado das eleições. À data da escrita destas palavras nada é claro, nem que o PS o consiga nem o contrário, mas já se podem fazer algumas considerações. É que se não há nada à partida a impedir que, constitucionalmente, PS formasse governo com a participação de Bloco e PC, a legitimidade democrática desse governo já é outra conversa. Afinal PS, BE e PC passaram a campanha a degladiar-se apontando cada um ao outro o dedo como traidor. A deputada Isabel Moreira, do PS, até chegou a escrever que um voto na esquerda radical equivaleria a um voto na direita. Nada mal.

Mas há mais: o PS está mais próximo do arco do governo, dos partidos atlantistas, europeístas e demo-liberais, ou de partidos estalinistas e trotzkistas aliás com uma visão algo duvidosa da democracia? Creio que ainda nos recordamos bem do que PCP fez da única vez que esteve no governo. Dizem que os tempos mudam e que com esta aproximação cai finalmente o Muro de Berlim da democracia portuguesa, mas a verdade é que não vai um ano que no Avante se chamava “alegada” à queda desse mesmo muro.

Escrevi nestas páginas durante uns bons anos. Com a minha saída do Parlamento entrego também este desafio. Em tempos interessantes, é certo, mas que espero terminem a favor de Portugal. Obrigado ao Miguel Almeida e a toda a equipa do Vivacidade!

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