Teremos hospitais a mais?

Tive ocasião de ler que o nosso Ministério da Saúde pretende modificar as regras de pagamento dos serviços médicos dos hospitais públicos, de forma a que estes possam concorrer a serviços, até aqui, quase só ao alcance dos privados.
Será certamente uma iniciativa a aplaudir dada a sua originalidade, antevendo que no futuro possa existir uma salutar concorrência entre os serviços de saúde privados e públicos, tal como existe em outros países europeus, em especial em França, sistema de saúde, que por várias vezes já tive ocasião de defender. Mas por outro lado, não deixa de ser algo estranho, como se os nossos hospitais públicos, não tivessem doentes e necessitem para sua sobrevivência de outro tipo de doentes, até estrangeiros. Também será algo estranho as regras da concorrência serem só para um lado, ou seja, o público concorrer com o privado, mas o privado não possa concorrer com o público, pois a um utente do SNS, é lhe vedado o acesso, pelo menos de forma direta, a uma instituição privada de saúde. Será que existe alguém a inventar? Sou de opinião que o nosso país precisa de reformas urgentes, mas reformar, não é remendar. Uma reforma requer uma mudança radical no sistema e aqui, provavelmente se está a perder uma boa oportunidade para o fazer. Depois, o artigo em causa, referia que uma consulta de urgência num hospital público ficaria por algo superior a 100€, num hospital central, fora os exames complementares a efetuar. E que o Ministério da Saúde permitiria a “negociação” caso a caso, em que uns utentes pagaria uma coisa e outros outra, consoante o seu tipo de assistência de saúde. Ora isso não é mais do que privatizar o sistema público, mas num só sentido, em que o comum dos utentes continua com as mesmas dificuldades de acesso, ou até mais, pois a partir daqui, as listas de espera para tratamentos, além dos normais e numerosos pacientes, do serviço nacional de saúde, terão agora um acrescimento dos utentes de seguradoras, subsistemas de saúde, etc.
Algo de estranho, esta medida agora anunciada. É do conhecimento geral que um utente por exemplo da ADSE, prefere muitas vezes recorrer a um hospital privado convencionado, pois a taxa que paga para consulta (entre 3 a 3,99€) é bem menor do o que pagaria numa mesma consulta num hospital público. No entanto, também dou razão a um hospital público, em que os seus próprios trabalhadores, como utentes da ADSE, prefiram ir a uma instituição privada em vez e serem tratados no próprio local de trabalho, comparticipando o próprio hospital onde trabalham em receitas de outros. Então como se resolveria este dilema? Penso que nada mais fácil, tão somente tornar os dois sistemas público e privado a competir entre si, podendo o utente, de qualquer sistema escolher, não só pela qualidade, como pelo tipo de assistência a prestar. Por exemplo, em casos de tratamentos específicos, como o tratamento do cancro, é de todo o interesse ter uma instituição especializada para o tratamento especifico, tal como é o IPO, instituição que terá sempre de ser dependente de um sistema de saúde público, garantindo o livre acesso e igual a todos os seus utentes, com tecnologia de ponta, que torna quase insustentável a iniciativa privada. É verdade que um ditado popular diz “que de médico e louco, todos temos um pouco”, mas não devemos tomar esse ditado à letra, senão sujeitamo-nos a termos pessoas em centros de decisão em saúde, que nada percebem de saúde, uma área tão específica, que depois levam a decisões erradas, com claro prejuízo para as populações, bem como os projetos que tem o poder de influenciar. Sei bem ao que isso pode levar…
Reparem o que se passa em França, o sistema de saúde que considero dos melhores, qualquer utente que necessita de ir a uma consulta de com o seu médico, recebe uma senha de um valor controlado, como se fosse um cheque tipo dentista e se quiser ir a um especialista, recebe uma senha no valor de 23,00€, podendo depois optar por ir a um hospital público ou privado, clinica ou consultório médico. Uma certeza é que o SNS só pagaria 23,00€ pela consulta (no nosso atual sistema o SNS paga cerca de 90€ por uma consulta de especialidade num hospital público) o que levaria o utente ir a um local onde a consulta custaria esse valor e no caso de desejar ir a um local onde o preço da consulta fosse mais alto, pagaria o utente essa diferença. É no fundo o sistema da ADSE, que todos sabemos que os seus utentes estão muito beneficiados em relação aos restantes do SNS, pois podem escolher livremente onde podem ser atendidos, ainda por cima, sem que isso acarrete esforço financeiro para o Estado, pois como sabemos, a ADSE, está neste momento equilibrado, quase auto sustentável.
Até breve, estimados leitores…

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