Tragédias dos incêndios têm de ser maldição

1 – Todos os anos no verão o país enfrenta a praga dos incêndios, ora de forma mais dramática, ora um pouco mais suportável. Basta o calor começar a apertar, e é certo e sabido que os noticiários começam a ser preenchidos com histórias dantescas de fogos descontrolados um pouco por todo o país. Os resultados, ainda que variáveis, trazem-nos sempre um mar de chamas e lágrimas, com mais ou menos vítimas mortais. Isto sem contar com as perdas dos haveres do trabalho, os estábulos, os animais, as casas de habitação, e, claro está, milhares de hectares de florestas.

Este ano o início da trágica temporada não podia ser mais dramático. Mais de seis dezenas de mortos, grande parte deles pessoas indefesas, cercadas pelas chamas enquanto circulavam na estrada, uns já em fuga, outros movidos pela ajuda no combate às chamas, outros traídos pela curiosidade de ocasião, e outros ainda simples passantes no lugar errado, na hora errada. A estes juntaram-se os que morreram nas suas casas, também cercados pelo inferno das labaredas.

2 – E todos os anos, perante a tragédia, repetem-se os debates políticos e técnicos sobre a forma de enfrentar estas calamidades. Há uns anos atrás o discurso dominante era o dos interesses económicos, dos madeireiros, dos fabricantes de equipamentos de combate, dos projetos travados de terrenos urbanizáveis, ou simplesmente de pirómanos maníacos. O cerco foi-se apertando, e o país foi-se organizando e construindo novos redutos jurídicos de defesa, de forma mais profissional, e tecnicamente melhor apetrechado.

Mas nem por isso a crónica praga dos incêndios deixou de fazer as suas inúmeras vítimas a cada ano que passa. E se não é uma maldição – porque a ira divina ou dos deuses é coisa banida há séculos ou milénios! – então a verdadeira maldição só pode ser fruto de sucessivos e repetidos erros ou omissões de humanos. Que é como quem diz, falhas estruturais nas políticas de ordenamento das florestas, de prevenção, de vigilância, de gestão de solos, de informação, de controlo, e de formação cívica e educacional.

3 – É claro que incêndios desta natureza, ou tragédias humanas de semelhante grandeza existem em todos os países, mesmo nos mais ricos, mais modernos, mais preparados, mais civilizados. Nem é, como todos sabem, um exclusivo dos portugueses, e nem mesmo da Europa. Países tão poderosos como os Estados Unidos ou a Austrália, o Canadá ou o Japão registam na sua história recente enormes tragédias desta natureza. Não temos, pois, de nos autoflagelar pelas nossas falhas, ou pelas nossas fatalidades.

Mas temos sim de procurar aprender sempre com cada nova situação, para que no futuro não se cometam os mesmos erros. A haver erros, que sejam novos e imprevistos. Temos de organizar os recursos, a todos os níveis, para que quando o inesperado acontece sejamos capazes de minimizar ao máximo os seus efeitos. E não basta apostar nos recursos técnicos e nos meios de combate. É importante, também, investir na formação cívica, na educação de crianças, jovens e adultos. É preciso apostar na informação em tempo real, e gerir corretamente os espaços de circulação nos teatros de operações. Para que não nos conformemos com as fatalidades, e menos ainda com as maldições…

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