Um certo retorno da política

1. A nossa dívida aos gregos Tenho sempre uma atitude de grande reserva em relação a fenómenos políticos como o do Syriza, na Grécia. Uma reserva porventura marcada pela ponta de conservadorismo de esquerda, a que a opção de coligação com um partido da extrema-direita, depois das eleições, veio acrescentar razões. Apesar disso, tenho que reconhecer que, independentemente daquele que venha a ser o desfecho de todo o processo negocial que o novo governo grego lançou, há uma vitória que já ninguém lhe retira. Enfrentou com determinação o falhanço do programa de ajustamento imposto à Grécia, assumiu a representação de um povo asfixiado, revelou uma coragem acima do que poderíamos esperar, discutiu, resistiu, avançou, recuou, negociou, enfim, provocou o retorno da política e do debate político à arena europeia. Sentados frente à televisão, começamos a assistir, com surpresa, ao périplo de um primeiro-ministro e um Ministro das Finanças sem gravata, a percorrer as principais capitais, a “bater o pé”, a quebrar com o cinzentismo do politicamente correto, a romper com o coro da saída única para a crise, do custe o que custar e a obrigar a tecnocracia instalada a discutir política. Só por isso, neste tempo tão adverso a heróis, dominado pelo politicamente correto e por gente de coluna vergada, correm o risco de se alcandorarem ao Olimpo. Um lugar definitivamente fechado ao nosso primeiro-ministro e ao presidente da República, que nem sequer um prudente silêncio foram capazes de adotar na expectativa da evolução dos acontecimentos. Não! Avançaram de imediato num coro acusatório. No final de tudo isto, podemos ficar a dever muito ao Syriza. Valham-nos os deuses gregos porque os santos da casa, definitivamente, não fazem milagres.

2 . França, Bélgica, Dinamarca Escrevo este artigo no dia seguinte aos ataques terroristas ocorridos na pacata capital dinamarquesa. Em menos de dois meses a Europa assistiu horrorizada a três graves ataques ao direito à segurança e à liberdade de expressão. É evidente que esta sequência de investidas não pode deixar de ter consequências e obriga-nos a uma séria reflexão, mas é bom que os Ministros do Interior, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros tenham nervos de aço e não cedam à tentação do retorno à Europa fortaleza. O combate ao terrorismo é um combate sem tréguas, que só poderá ser ganho se não cedermos ao medo, nem abdicarmos dos valores civilizacionais que consubstanciam a nossa identidade.

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