Uma crítica

Todos sabemos como o salário é sagrado integrando, no atual contexto social que vivemos, o “cabaz” daqueles que são os essenciais pressupostos da nossa dignidade enquanto pares de uma Nação quase milenar e que todos queremos que seja moderna, solidária e justa. Tal característica essencial motiva que apenas por razões críticas se possam tomar opções gestionárias que impliquem a cativação de parte do seu quantum e sempre em prol de valores maiores como o resgate da credibilidade desta Nação que tanto nos orgulhamos de pertencer.

Ora a crise brutal em que ainda nos encontramos mas cujo epílogo substantivo ocorreu nestes anos em que fomos geridos pela Troika, obrigou a que grande parte dos portugueses tivesse que ver designadamente os respetivos salários, e de forma inopinada, “encolhidos” mensalmente, contribuindo desta forma para que a Nação readquirisse o respeito dos seus pares e se permitisse voltar a ser autónoma nas suas opções de desenvolvimento (tanto quanto tal possa ser atualmente possível).

Claramente que se entendeu tão brutal opção como excecionalíssima, fruto das adversas circunstâncias, e que rapidamente seria retomada a normalidade no processamento do seu pagamento. A verdade contudo é que passaram já quatro anos e, muitos portugueses, continuam a ver o seu salário diminuído, numa constância mensal frustrante, e com todas as penosas repercussões ao nível da crescente falta de imaginação na boa gestão do seu orçamento familiar.

O governo, invocando critérios de sustentabilidade, considerou apenas possível efetivar a restituição dos cortes salariais, a um ritmo de 20% ao ano, sendo que apenas em 2019 se tornará possível reassumirem a plenitude do seu valor. Será o fim de quase uma década de excecionalidade e de fortes limitações na qualidade de vida de tantos portugueses.

Pois, com este árduo e real contexto, a recente declaração da Sra. Ministra das Finanças proferida na cessão de encerramento das jornadas da JSD, de que o país tem os cofres cheios e que estará em condições de aguentar, por um período prolongado, qualquer perturbação do mercado, deixou muitos destes portugueses perplexos por não entenderem a “pouca pressa” da Sra. Ministra em, perante tão confortável conjuntura, reenquadrar o timing da restituição salarial. É que toda e qualquer medida excecional deverá perdurar apenas excecionalmente, e tanto mais quanto mais penalizante for dos direitos dos cidadãos.

Urge portanto restabelecer a normalidade em tão crucial matéria, invocando da Sra. Ministra o reavaliar da premência da manutenção dos cortes salariais considerando a evolução favorável das finanças públicas, anulando desta forma uma certa noção de injustiça relativa que estes portugueses nunca deixaram de sentir.

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