Urgências dos Hospitais estarão em dificuldade?

Tem sido um tema sempre atual, sobre o qual temos necessidade de refletir. Têm vindo a público vários casos denunciados pela comunicação social, com mais ou menos impacto na opinião pública, alguns provavelmente com exagero no relato dos acontecimentos. Principalmente casos de morte nas urgências, sem adequado atendimento, ou atendimento atrasado, o qual originaria a morte de alguns utentes. Estes casos mais mediáticos têm muitas vezes de ser analisados. Lembro que se existe um local com mais probabilidade de acontecer a morte é precisamente na urgência de um hospital e não necessariamente por mau atendimento, mas precisamente porque é o local onde doentes em perigo de vida recorrem, onde diariamente se tratam casos terminais, ou por acidentes ou por doenças, numa tentativa de tratar doentes, muitos deles de risco. Ou seja, deveria ser assim, pois as estatísticas são falseadas pela grande quantidade de utentes que recorrem sem motivo urgente a um Serviço de Urgência. Claro está que a culpa não é só destes, pois o sistema não está agilizado o suficiente para dar resposta em tempo útil a uma situação patológica que, não sendo uma doença terminal, ou de risco, é sem dúvida altamente incapacitante. Posso, por exemplo, descrever o caso de um doente com uma crise de dor lombar com ciática, que muito provavelmente corresponderá a uma hérnia discal lombar. Este doente que tem necessidade urgente de ser assistido e tratado, é muitas vezes recusado num serviço de urgência e vai primeiramente ao seu médico de família. Se conseguir uma consulta em tempo útil, já é uma sorte, que muitas vezes não acontece, principalmente em horários fora de expediente, mas se o conseguir, o médico de família vai medicá-lo, e pedirá uma radiografia, que vai ter de ser marcada e depois esperar no mínimo oito dias. Em seguida, porque mantém a sua dor e incapacidade vai ser necessário um TAC (pois a ressonância magnética não está disponível na maioria da vezes) e aí vai esperar mais tempo. Se no final de tudo isto, for diagnosticado uma hérnia discal lombar, será enviado a consulta de especialidade no Hospital da área, e aí não arrisco a dizer o tempo que vai esperar, pois é muito variável. Quando finalmente chega ao especialista em ortopedia, provavelmente será necessário a tal ressonância magnética, para um correto diagnóstico. Em conclusão, será isto viável? E reparem não é um caso de morte, com o mediatismo de merecer reportagem televisiva, mas sim um exemplo que ocorre diariamente entre nós, em muito maior frequência, com marcado sofrimento e prolongado no tempo. Claro que o mesmo doente, sabendo que existe um especialista de ortopedia 24 horas numa urgência, terá uma forte tentação de alterar o sistema e recorrer diretamente ao mesmo, subvertendo o mesmo sistema, contribuindo para que o mesmo não funcione. Como resolver? O que não falta entre nós é quem diga mal, ou quem identifique os problemas, disso temos muitos, o que falta é de quem dê a solução ou aponte caminhos para resolução dos problemas. Bem se calhar, aí reside a crise da política e da sociedade do nosso país. Se é por falta de políticos capazes ou por outro motivo, não sabemos, mas o certo é que o sistema é frágil, bastando uma época de maior afluência aos serviços existentes, para que os mesmos entrem em colapso. Então como resolver. É um tema que já temos debatido em artigos anteriores muitas vezes. A solução passará essencialmente pelo aproveitamento de todas as estruturas de saúde existentes, quer públicas quer privadas, de forma concorrencial e agilizando o atendimento, fazendo depender a contribuição econômica da eficácia e qualidade do atendimento. Como forma de provar a eficácia deste sistema, vejam o que se passa com os beneficiários da ADSE, que têm liberdade de escolher aquilo que acham melhor, seja privado, público ou outro, sem que para isso o estado tenha de despender mais recursos económicos. Para isso é preciso uma visão real do sistema e, sem hipocrisia ou falsas modéstias, fazer uma verdadeira reforma na saúde. Sim, é esse o grande problema do país, em particular na saúde, a falta de reformas políticas que imprimam uma eficácia e qualidade da vida das pessoas. Não culpem só o ministro A ou B, o Hospital X ou Y, pois enquanto não houver alguém de coragem e visão, continuaremos com os mesmos problemas.

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