Visto da Praia da Memória

Como vem sendo tradição, nesta época estival, regresso ao “Visto da Praia da Memória”.

Confesso que, nas últimas semanas, me deixei tomar por uma prazerosa preguiça substituindo os serviços noticiosos por recortes de imprensa e, desse modo, beneficiei, em tempo de férias, de uma significativa redução sanitária da exposição à catadupa de disparates das últimas semanas.

Os incêndios têm-se mostrado uma verdadeira fogueira de vaidades em que toda a “D. Constança” aparece a dizer seja lá o que for. Do anúncio feito por Pedro Passos Coelho de que teriam ocorrido suicídios entre as pessoas afetadas pelo incêndio de Pedrógão Grande, quando nada disso tinha acontecido, à barafunda da lista dos nomes das vítimas, com Assunção Cristas a exigir que o Governo violasse a separação de poderes e quebrasse o segredo de justiça, todos se têm esvaído num triste espetáculo próprio de quem se arrasta sem rumo, sem ideias e sem alma.

O Pontal foi um verdadeiro desastre para Pedro Passos Coelho que nos presenteou com a uma espécie de Trumpismo à portuguesa.

A afirmação de que não quer qualquer um a viver em Portugal representa uma cedência a um conservadorismo retrógrado e a um populismo serôdio, indignos da história do partido que representa.

Não há adjetivos capazes de qualificar esta deriva por parte do líder do maior partido da oposição, indiferente ao facto de sermos um país de emigrantes e ao esforço desenvolvido pelas autoridades nacionais para que os portugueses espalhados pelo mundo sejam respeitados nos países de acolhimento.

Somos um país envelhecido, onde a parca entrada de imigrantes não representa uma ameaça, mas uma oportunidade generosa de regeneração e desenvolvimento.

É bem verdade que um desastre nunca vem só e, como se não bastasse, o novo líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, revela uma apetência incrível para meter o pé na poça, depois da infausta estreia em cena com o tema dos incêndios, mal o primeiro ministro lançou o desafio para uma convergência em torno dos grandes investimentos para os próximos anos, correu de imediato a bater ruidosamente a porta.

Não entender que não podemos andar a mudar o rumo, em matéria de investimento público e de políticas nucleares, a cada nova legislatura, é não perceber um dos principais problemas deste país.

Acabo a pensar, mais uma vez, que um dos grandes problemas da política em Portugal tem sido a ascensão política de um certo arrivismo caceteiro. E não me venham com a silly season, porque a asneirada é constante.

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