A praxe, novamente…

Luís Monteiro / BE

Mais um novo ano letivo, mais abusos na praxe relatados e denunciados por estudantes, docentes e famílias. Até quando é que permitimos que a servidão seja o cartão de convite na Universidade Pública? Para tentar dar uma resposta a essa reflexão tão necessária, tento, neste artigo, desmontar alguns argumentos utilizados a favor da praxe.

  1. «O Bloco quer proibir as praxes. Tem uma posição ditatorial em relação ao assunto»

O Bloco não quer proibir as praxes. O Bloco quer combater uma sociedade desigual, onde a subordinação é regra e a estratificação é a ordem natural das coisas. A iniciativa parlamentar que apresentamos combate a discriminação, a violência e a segregação, conjugando uma série de mecanismos que defendem os mais benevolentes, como a criação de um gabinete de apoio aos alunos vítimas de violência na praxe ou uma linha verde para a denúncia dos mesmos casos. Quem for contra isto, esconde alguma coisa.

«Contra as praxes violentas, sou a favor.  Mas não devemos criticar a praxe»

Um dos sinais curiosos que este tema apresenta é ter-se tornado tabu. Ao longo dos anos, à medida que a praxe ia construindo uma hegemonia no meio académico, a discussão sobre a democracia e os modelos de integração esvaziou-se. Existe uma relação direta entre estes dois

  1. «O que é preciso é mudar a praxe por dentro»

Tornar a praxe fofinha é puro voluntarismo sem efeitos práticos. Tal como não existe austeridade light, não existe praxe light, precisamente pelo facto de que tanto a ideologia da austeridade como a ideologia da praxe se alicerçam nos pilares da desigualdade, da pirâmide social e de

  1. «Só vai quem quer»

Entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que liberta. Se é verdade que, em última instância só vai quem quer, também é verdade que a pressão social criada à volta do caloiro que recusa participar na praxe é de tal ordem que, em parte dos estabelecimentos de ensino superior, são vários os casos de estudantes com problemas de integração social – curiosamente, nos locais onde a praxe tem mais peso, são também os locais onde os que ficam de fora se sempre mais reprimidos. Quando falamos em receção estamos a dirigir-nos para todos os estudantes sem exceção. Ou não será assim?

  1. «Na minha faculdade é tudo tranquilo. Na do lado é que é horrível!»

Um dos argumentos mais utilizados pelos defensores da praxe é passar as culpas para o vizinho do lado. Esse comportamento só desculpabiliza o abuso. Quem admite, para si, a responsabilidade de denunciar a violência,

  1. «O Conselho de Praxe estipula regras! Não vale tudo…»

Se o Conselho de Praxe estipula regras e merece o respeito de todos, qual a razão do receio dos seus membros em adquirir personalidade jurídica? Qualquer grupo de cidadãos com iniciativa cultural ou política tem todo o interesse em criar um corpo jurídico em torno do seu projeto. A Praxe é capaz de ser o único espaço que rejeita a transparência. Vale tudo. E para perpetuar o esconderijo, estipulam-se regras internas, mas não se responde perante a lei, cá fora.

  1. «Só quem faz parte é que sabe do assunto»

Se assim é e se é um ato que orgulha quem o pratica, porquê evitar a discussão pública sobre o mesmo?

Uma Escola Pública mais democrática é uma escola mais inclusiva e sem preconceito social. A praxe representa hoje um mecanismo distorcido de integração a partir da exclusão. Esta lógica deve ser combatida. E combater não significa proibir. O que não vale é ficar em cima do muro.

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