As autárquicas e a qualidade da democracia…

Isabel Santos / PS

Escrevo este artigo, em Berlim, onde estou a liderar a Missão de Observação das Eleições Legislativas e, depois de diversos briefings com a participação das entidades responsáveis pela organização do processo eleitoral, representantes dos principais partidos, jornalistas, organizações da sociedade civil, dou comigo a pensar na forma como, um pouco por todo lado, se tem vindo a perder uma certa cultura de debate político.

Vêm-me à memória grandes debates que, em diversos países, marcaram campanhas eleitorais e dos quais resultaram surpreendentes viragens, face aos resultados esperados.

Momentos que só foram possíveis com grandes políticos, com valor próprio que excedia as máquinas de campanha, líderes visionários com ideias de futuro.

Quando já ia avançada nestes pensamentos, dei comigo a refletir sobre a campanha para as eleições autárquicas de 1 de outubro.

Tenho vindo a acompanhar as notícias, entrevistas e debates e confesso a minha desilusão face ao vazio de ideias que, de forma generalizada, marca esta campanha.

Não consigo conceber que se assuma uma candidatura sem ter um programa político para apresentar aos eleitores.

E, por isso, não consigo deixar de me surpreender com a desfaçatez daqueles que caídos de paraquedas, conhecendo mal o território onde se candidatam, desatam a debitar os maiores disparates, bem como com aqueles que tendo-se afirmado, ao longo dos anos, como mestres na arte da fuga ao contraditório, se fecham invariavelmente, no seu percurso e no discurso dos afetos, para preencherem o tempo de antena sem dizerem nada de concreto.

Depois é vê-los, quais verdadeiros artistas, a distribuir beijos e abraços, na rua, sem nunca anunciarem ao que vêm – até porque a sua motivação é verdadeiramente inconfessável – e o que se propõem fazer em prol das comunidades.

Não tenho qualquer ilusão quanto à dose de emocionalidade que, muitas vezes, rodeia o processo de escolha eleitoral, mas será que ainda há gente que se deixa enganar a ponto de votar em falsos candidatos, verdadeiras barrigas de aluguer, que se apresentam a eleições para serem substituídos, pouco depois, em caso de vitória?  Será que ainda há gente que vota neste ou naquele partido ou candidatura independente sem que lhe seja apresentado um projeto credível? Será que ainda há gente que vota em candidaturas que de tão fracas se destinam claramente a ser canibalizadas por outras?

Nestas eleições autárquicas está também em causa a qualidade da democracia. Não deixe que sejam outros a decidir por si. Vote!

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