Escolhas: entre a realidade e a aparência

Cecília Meireles / CDS

Na teoria, o debate de político devia ser sobre escolhas, propostas e factos. Na prática, a forma de comunicar da atual maioria – PS, BE e PCP – tornou isto praticamente impossível. O Governo frequentemente diz uma coisa, enquanto faz o seu contrário. Ou diz uma coisa agora, e outra completamente diferente passados uns meses. Já o BE e o PCP são rápidos a chamar a si os louros de todas as medidas populares e ainda mais velozes a olhar para o lado quando alguma coisa corre mal.

Para se perceber melhor, talvez seja melhor exemplificar com casos práticos.

O programa Simplex tem sido um modelo de como o Governo diz uma coisa enquanto faz o seu contrário. Quando foi apresentado, em 2016, o primeiro-ministro classificou-o como uma prova de que os impossíveis acontecem. E até exemplificou com a imagem de uma vaca com asas. Os objetivos eram incontestáveis: simplificar e diminuir a burocracia. Já os resultados, um ano depois, deixam muito a desejar. Na realidade, o único impossível que realmente foi realizado foi conseguir que um programa em que muitas das medidas não saíram do papel aparecesse como um sucesso. Para o Governo, é assim mesmo. Desde que se crie a ideia de que está a haver simplificação, pouco importa que nem as empresas nem os cidadãos a sintam na realidade.

Já o caso das agências de rating exemplifica como o Governo tanto dizia uma coisa no passado, como o seu contrário agora. Em 2015, o primeiro-ministro afirmava que as agências de rating não credíveis. Quando há duas semanas tivemos a notícia de que uma agência de rating melhorou a nota da dívida pública portuguesa, o primeiro-ministro rapidamente veio dizer que esta melhoria é a demonstração de que houve uma viragem de políticas e de que estamos no bom caminho. No espaço de um ano, as agências de rating passaram a ser fiáveis outra vez.

Por último, a atitude acerca do uso de cativações é bem demonstrativa da atitude do BE e do PCP. Quando ficamos a saber que no ano passado o valor das cativações tinha atingido valores inéditos, ou seja, que muita da despesa pública prevista (e anunciada com fervor) não tinha na realidade sido realizado, e que na prática muitos serviços públicos tinham sofrido cortes, estes dois partidos ficaram convenientemente muito surpreendidos. É verdade que não há dinheiro para tudo. Mas então não faz sentido que todos os partidos deixem claro o que acham que é prioritário, em vez de andarem a dizer, como fazem BE e PCP, que se pode fazer tudo ao mesmo tempo?

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